É comum encontrar famílias que chegam à consulta com uma sacola cheia de caixas, receitas antigas e dúvidas sobre os horários dos medicamentos. Em alguns casos, o idoso utiliza remédios prescritos por diferentes profissionais, além de vitaminas, suplementos, chás e produtos comprados por conta própria.
Essa situação merece atenção, mas não deve ser motivo para pânico. Tomar vários medicamentos não significa necessariamente que o tratamento esteja inadequado. Muitas pessoas idosas convivem com diferentes condições de saúde e podem precisar de mais de um medicamento para manter a pressão, a glicemia, o sono ou outros aspectos sob controle.
O cuidado está em avaliar se todos continuam necessários, se estão sendo utilizados corretamente e se as combinações permanecem seguras. Conhecer os riscos da polifarmácia no idoso ajuda a família a perceber quando é importante procurar uma avaliação mais completa.
O que é polifarmácia no idoso?
A polifarmácia costuma ser definida como o uso regular de cinco ou mais medicamentos ao mesmo tempo. Essa contagem deve considerar não apenas os remédios prescritos, mas também aqueles utilizados sem receita, além de vitaminas, suplementos, fitoterápicos, chás e outras preparações.
O Ministério da Saúde alerta que a polifarmácia pode aumentar as chances de interações medicamentosas, quedas e prejuízos à qualidade de vida, especialmente quando não existe um acompanhamento adequado. O órgão também reforça que produtos naturais e suplementos podem interferir na absorção ou na eliminação de outros medicamentos.
Entretanto, o número de medicamentos não é o único fator importante. Um idoso pode utilizar seis medicamentos necessários, bem indicados e acompanhados, enquanto outra pessoa pode apresentar problemas usando apenas três.
Por isso, é importante diferenciar:
Polifarmácia apropriada
Acontece quando os medicamentos possuem uma indicação clara, oferecem benefícios para aquele paciente e são acompanhados regularmente.
Polifarmácia inadequada
Ocorre quando há medicamentos sem indicação atual, combinações que aumentam os riscos, duplicidade de tratamentos, uso prolongado sem revisão ou dificuldade para seguir corretamente os horários.
A Organização Mundial da Saúde recomenda uma abordagem centrada na pessoa, avaliando se cada medicamento continua adequado aos objetivos, às condições clínicas e às necessidades individuais do paciente.
Por que o idoso é mais sensível aos efeitos dos medicamentos?
Com o envelhecimento, o organismo passa por mudanças naturais que podem alterar a maneira como os medicamentos são absorvidos, distribuídos e eliminados.
O funcionamento dos rins e do fígado pode ficar mais lento. Também podem ocorrer alterações na quantidade de água, gordura e massa muscular do corpo. Como consequência, um medicamento utilizado há anos pode passar a provocar efeitos diferentes, mesmo que a dose não tenha sido modificada.
Além disso, pessoas idosas podem apresentar maior sensibilidade a substâncias que provocam sonolência, redução da pressão, alterações no equilíbrio ou confusão mental.
Isso não significa que os medicamentos devam ser evitados. Significa que o tratamento precisa ser acompanhado e ajustado de acordo com o momento atual da saúde do paciente. O Ministério da Saúde destaca que as mudanças no funcionamento do fígado e dos rins podem aumentar a sensibilidade da pessoa idosa e o risco de efeitos adversos.
Quais são os principais riscos da polifarmácia no idoso?
Os riscos variam conforme os medicamentos utilizados, as doenças existentes, a autonomia do paciente e a forma como o tratamento está organizado. Entre os problemas que merecem atenção estão:
Interações entre medicamentos
Uma interação acontece quando um medicamento altera o efeito de outro. Essa combinação pode reduzir a eficácia do tratamento ou aumentar a intensidade de determinados efeitos.
O risco também existe quando os medicamentos são combinados com suplementos, fitoterápicos, vitaminas, bebidas ou produtos utilizados sem orientação profissional.
Por essa razão, é importante informar à equipe de saúde tudo o que o idoso utiliza, mesmo que algum produto pareça inofensivo ou tenha sido comprado sem receita.
Sonolência, tontura e quedas
Algumas combinações podem provocar sonolência, fraqueza, queda da pressão ou dificuldade de equilíbrio. Em uma pessoa idosa, esses efeitos podem aumentar a possibilidade de tropeços e quedas.
A revisão dos medicamentos é uma das estratégias utilizadas na prevenção de lesões relacionadas às quedas, principalmente quando o paciente apresenta episódios recorrentes, tontura ou insegurança para caminhar.
Nem toda queda é causada por medicamentos. Alterações da visão, perda de força muscular, condições neurológicas e obstáculos dentro de casa também precisam ser avaliados.
Confusão mental e alterações cognitivas
Uma mudança repentina no comportamento, na atenção ou na memória nem sempre significa o início de uma demência. Em alguns casos, pode estar relacionada a efeitos adversos, interações, alterações metabólicas ou ao uso inadequado dos medicamentos.
A polifarmácia tem sido associada a maior risco de confusão aguda, alterações cognitivas, quedas, fragilidade e hospitalização.
Quando a família percebe que o idoso ficou mais sonolento, desorientado ou diferente após iniciar ou modificar um tratamento, é importante buscar orientação médica. Não se deve suspender o medicamento por conta própria.
Sobrecarga para rins e fígado
Rins e fígado participam da transformação e da eliminação de muitas substâncias. Quando esses órgãos apresentam redução de funcionamento, determinados medicamentos podem permanecer por mais tempo no organismo.
Por isso, a revisão do tratamento pode incluir a avaliação de exames, do estado de hidratação, da alimentação e de outras condições clínicas. O objetivo é verificar se as doses e os intervalos continuam adequados para aquele paciente.
Dificuldade para seguir o tratamento
Quanto maior o número de medicamentos e horários, maior pode ser a dificuldade para organizar a rotina.
O idoso pode esquecer uma dose, tomar o mesmo medicamento duas vezes, confundir caixas parecidas ou abandonar um tratamento por não compreender sua finalidade. Problemas de visão, memória, coordenação motora ou leitura também podem tornar esse processo mais difícil.
Esses erros nem sempre significam falta de cuidado. Muitas vezes, o esquema está complexo demais para a rotina daquela pessoa e precisa ser reorganizado.
Duplicidade de tratamento
Quando o paciente é acompanhado por profissionais diferentes, pode acontecer de dois medicamentos com finalidades semelhantes serem prescritos sem que um profissional saiba da conduta do outro.
Também é possível que uma receita tenha sido substituída, mas o medicamento antigo continue sendo utilizado. Levar todas as receitas e embalagens à consulta ajuda a identificar essas situações.
Uso de medicamentos que já não são necessários
A saúde muda ao longo do tempo. Um medicamento que foi importante após uma cirurgia, uma internação ou uma fase específica pode não ser necessário indefinidamente.
Em outros casos, o objetivo do tratamento pode ter mudado. A capacidade funcional, o grau de fragilidade, a expectativa de benefício e as prioridades do próprio paciente também devem participar das decisões.
Critérios técnicos, como os Critérios de Beers, ajudam os profissionais a identificar medicamentos potencialmente inadequados para algumas pessoas com 65 anos ou mais. No entanto, essas ferramentas não substituem a avaliação individual e não significam que determinado medicamento seja proibido para todos os idosos.
Quais sinais podem indicar problemas com os medicamentos?
Familiares e cuidadores devem observar mudanças que surgiram após o início de um tratamento, uma alteração de dose ou uma internação.
Alguns sinais que merecem avaliação incluem:
- sonolência excessiva;
- tontura ou sensação de desmaio;
- quedas ou desequilíbrio;
- confusão mental;
- piora repentina da memória;
- falta de apetite;
- náuseas ou alterações intestinais persistentes;
- fraqueza;
- dificuldade para urinar;
- sangramentos ou manchas sem explicação;
- dificuldade para organizar os horários;
- recusa frequente dos medicamentos;
- uso de receitas antigas;
- procura por diferentes profissionais sem uma lista atualizada do tratamento.
Esses sintomas podem ter diversas causas. Portanto, não é adequado concluir que o medicamento é o responsável sem uma avaliação médica.
Também não é recomendado interromper um tratamento de forma abrupta. Alguns medicamentos precisam ser reduzidos gradualmente, enquanto outros são essenciais para manter uma condição de saúde controlada.
Como é feita a revisão dos medicamentos?
A revisão medicamentosa é uma avaliação organizada de tudo o que o paciente utiliza. O objetivo não é simplesmente diminuir o número de remédios, mas tornar o tratamento mais seguro, compreensível e coerente com as necessidades atuais.
Durante essa avaliação, podem ser analisados:
- o motivo de uso de cada medicamento;
- o tempo de tratamento;
- os horários e as doses prescritas;
- possíveis duplicidades;
- interações entre medicamentos;
- efeitos adversos;
- funcionamento dos rins e do fígado;
- condições de memória, visão e autonomia;
- capacidade de organizar as doses;
- uso de suplementos, vitaminas, chás e fitoterápicos;
- objetivos e prioridades do paciente;
- participação da família ou do cuidador.
Quando avalio um paciente que utiliza muitos medicamentos, procuro entender a história completa. Não basta olhar uma lista de prescrições. É necessário saber quem indicou cada tratamento, qual problema estava sendo tratado e como aquela pessoa está se sentindo no dia a dia.
O uso racional de medicamentos pressupõe que o paciente receba tratamentos adequados às suas necessidades clínicas, pelo período apropriado e com acompanhamento responsável.
Se você percebeu quedas, confusão, sonolência ou dificuldade para organizar os medicamentos de um familiar, uma avaliação geriátrica completa pode ajudar a compreender o que está acontecendo.
O que é desprescrição?
Desprescrição é o processo planejado e acompanhado de reduzir, substituir ou interromper um medicamento quando os riscos passam a superar os benefícios ou quando ele já não atende aos objetivos do paciente.
Esse processo não significa retirar todos os medicamentos. Também não deve ser realizado por familiares, cuidadores ou pelo próprio paciente sem orientação.
A desprescrição pode envolver:
- confirmar se a indicação continua válida;
- avaliar os benefícios e os possíveis riscos;
- estabelecer quais medicamentos devem ser revistos primeiro;
- reduzir doses de maneira gradual quando necessário;
- acompanhar sintomas e possíveis mudanças;
- reavaliar a decisão ao longo do tempo.
Em alguns casos, a melhor conduta será manter todos os medicamentos. Em outros, poderá ser possível simplificar os horários ou retirar um tratamento que já não oferece benefício relevante.
A decisão deve ser compartilhada com o paciente e, quando necessário, com a família ou o cuidador.
Como a família pode ajudar no uso seguro dos medicamentos?
Algumas atitudes podem tornar o tratamento mais organizado e reduzir erros:
- Mantenha uma lista atualizada com o nome, o horário e a finalidade de cada medicamento.
- Inclua vitaminas, suplementos, chás, fitoterápicos e produtos utilizados sem receita.
- Leve a lista e, quando possível, as embalagens para todas as consultas.
- Informe internações, atendimentos de urgência e alterações recentes nas prescrições.
- Evite utilizar medicamentos indicados para outras pessoas.
- Não aproveite receitas antigas sem uma nova avaliação.
- Observe mudanças de comportamento, equilíbrio, sono, apetite e autonomia.
- Peça ajuda quando os horários estiverem difíceis de compreender.
- Mantenha os medicamentos nas embalagens originais para facilitar a identificação e o controle da validade.
- Nunca interrompa ou modifique uma dose sem conversar com a equipe responsável.
Alarmes, tabelas e organizadores podem ajudar, mas devem ser utilizados somente depois que a prescrição estiver atualizada e compreendida. O Ministério da Saúde também orienta manter os medicamentos em suas embalagens originais e buscar apoio quando houver dificuldade de leitura ou organização.
Quando procurar um geriatra?
A avaliação geriátrica pode ser especialmente importante quando o idoso:
- utiliza cinco ou mais medicamentos;
- acompanha-se com vários especialistas;
- teve uma internação recente;
- apresenta quedas ou tonturas;
- demonstra sonolência ou confusão;
- possui alterações de memória;
- tem dificuldade para administrar as próprias doses;
- utiliza receitas antigas ou duplicadas;
- apresenta fragilidade ou perda de autonomia;
- começou a utilizar suplementos ou medicamentos por conta própria.
O geriatra avalia o paciente como um todo, considerando as doenças, os medicamentos, a memória, a mobilidade, a alimentação, a autonomia e os objetivos de cuidado.
Essa visão integrada pode ajudar a organizar as informações de diferentes especialistas e construir um plano mais adequado à realidade do paciente.
Conclusão
A polifarmácia nem sempre representa um problema. Em muitas situações, utilizar vários medicamentos é necessário para controlar doenças e preservar a qualidade de vida.
O risco aparece quando o tratamento deixa de ser revisado, quando existem prescrições de diferentes profissionais sem integração ou quando a rotina se torna complexa demais para o paciente.
Uma avaliação completa pode identificar interações, efeitos adversos, duplicidades e dificuldades de organização. Mais do que reduzir medicamentos, o objetivo é garantir que cada tratamento tenha uma finalidade clara e contribua para envelhecer com mais autonomia e dignidade.
Para agendar uma consulta presencial, domiciliar ou online com a Dra. Marcela Mattos, acesse a página de agendamento com geriatra ou entre em contato pelo WhatsApp (17) 99641-2233.
A Dra. Marcela Mattos é geriatra e gerontóloga, CRM 140.023 | RQE 68.947, com atendimento presencial e domiciliar em São José do Rio Preto e consulta geriátrica online para todo o Brasil.
Perguntas frequentes sobre polifarmácia no idoso
Tomar cinco medicamentos significa que o tratamento está errado?
Não. O número de medicamentos não define sozinho se o tratamento é adequado. É necessário avaliar a indicação, os benefícios, os riscos e o acompanhamento de cada um.
O idoso pode parar um medicamento quando se sente bem?
Não é recomendado interromper o tratamento por conta própria. Sentir-se bem pode ser justamente um sinal de que o medicamento está funcionando. A decisão deve ser discutida com a equipe de saúde.
Vitaminas e suplementos entram na revisão?
Sim. Vitaminas, suplementos, chás e fitoterápicos também podem provocar efeitos adversos ou interagir com medicamentos prescritos.
Quem prescreveu o medicamento precisa fazer a retirada?
Sempre que possível, os profissionais envolvidos devem compartilhar informações. O geriatra pode organizar a avaliação global e discutir as possíveis mudanças com os demais profissionais responsáveis.
Com que frequência os medicamentos devem ser revisados?
A frequência depende da saúde e da autonomia do paciente. A revisão se torna especialmente importante após internações, mudanças de sintomas, quedas, alterações de memória ou inclusão de novos tratamentos.













